Comemorações do 25 de Abril na EB1/JI Qta do Conventinho
Profª Ana Valente
C
omemorar o 25 de Abril sempre foi um objectivo cumprido na nossa escola. Mudámos de edifício mas não de
convicções. Continuamos a crer que, as gerações que viveram o antes de 1974, precisam mostrar, falar,
explicar às novas, porque é que o dia 25 de Abril de todos os anos é feriado.
Comemorando-se este ano o centenário da República, reveste-se doutra dimensão o que possamos falar sobre o 25 de Abril.
E se não reparem: a própria etimologia da palavra República” nos remete para “coisa pública, de todos”, a “nação é de todos”, “o poder que é de todos”.
O Movimento dos Capitães que culminou com aquela madrugada libertadora em 25 de Abril de 1974, não foi mais do que devolver à nação (todos), o poder que é de todos pela força da LIBERDADE.
Foi a pensar nestas variáveis que tivemos, este ano na EB1/JI do Conventinho, uma semana dedicada a uma exposição temática sobre a qual me pediram para escrever algumas linhas.
Escolhido o espaço, decidimo-nos por três núcleos: o antes de 74, em que a Escola dos nossos avós tomava lugar de destaque e o dia da liberdade.
Tudo se passou entre a entrada da escola e o átrio central.
Entre muito material cedido pela professora Lígia Santos que tem um espólio considerável e a quem agradecemos ter-nos facultado tantos documentos, outras pessoas trouxeram “relíquias” que ajudaram a construir a imagem da vida no tempo em que a televisão era a preto e branco, os cd's eram de vinil, os computadores tinham uma fita preta e vermelha e uma impressora acoplada.
Jornais da época, trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos sobre temas como a PIDE e a Guerra Colonial, juntaram-se a esta área de tempos cinzentos para um povo que vivia triste e silenciado num país de sol e céu azul.

Lemos a obra “O Tesouro” de Manuel António Pina e percebemos melhor o significado da palavra “tesouro”.

Transposta a porta do átrio central, esperava-nos a escola dos nossos avós. O mobiliário foi-nos gentilmente cedido pelo Núcleo Museológico da Quinta do Conventinho e ajudou a dar a este espaço uma atmosfera mais real. Os mais velhos recordaram com alguma saudade os tempos das carteiras inclinadas, onde cabíamos tão bem e são agora tão apertadas; os mais novos acharam graça a estas “mesas” esquisitas, quase de brincadeira, mas logo reconheceram como muito estranho ter de se rezar à entrada e à saída, perfilar ao lado da carteira e receber a professora com um coro uníssuno: “bom dia senhora professora”, de se andar de bata, a lousa para escrever, o saquinho de guardanapos com a fatia de pão para o lanche, a mochila sem bonecos, os manuais... tão feios, sem cor e com textos tão compridos.
Ao lado, uma mostra de brinquedos de outros tempos chamava a atenção de todos: os jogos, os carrinhos de corda... a eletrónica das PSP's, onde estava?
Então passávamos para o Dia da Liberdade: o comunicado difundido na rádio, as imagens e jornais do dia, os soldados e um povo sedento de liberdade que não sabia muito bem o que estava a acontecer, mas tinha de ser coisa boa se havia cravos no cano das espingardas.
Alguns livros e revistas documentavam também a época de esfuziante alegria que aqueles primeiros tempos geraram na alma de um povo que não se resignara apesar de calado.
A música de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira ajudava a dar corpo às explicações e compunha um cenário de época.

Seria no ginásio que, na manhã do dia 22 de Abril, uma assistência atenta e curiosa, recebeu o avô do Rui Pedro: o próprio Jerónimo de Sousa que nos veio falar de como eram os tempos em que se preparava às escondidas o 1º de Maio e depois, quem se atrevia a ir à manifestação, era molhado com canhões de água azul para mais tarde ser preso quando regressasse a casa, na estação de Metro ou de comboio.
Falar de como os meninos e meninas de hoje são afortunados por terem na mão esse tesouro que precisam guardar e defender. E é por isso que, iniciativas como esta, ajudam a criar uma geração guardiã desse valor essencial ao qual só sabemos dar valor se o perdermos: a Liberdade.

Muitas foram as visitas à nossa exposição, das nossas turmas às da escola de Santo António dos Cavaleiros, de familiares, amigos e colegas professores.
Mais do que os elogios tecidos à mostra que conseguimos, apraz-nos o entusiasmo e atenção que as nossas crianças demonstraram e esperamos que tenham aprendido o que queríamos transmitir:
vivem numa época privilegiada, têm meios e recursos imensamente maiores e melhores que os avós, também porque o mundo mudou em Portugal numa madrugada em 25 de Abril de 1974.